As rodovias federais brasileiras foram palco de uma verdadeira guerra diária durante as festas de fim de ano. Os números da operação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), entre 23 de dezembro e 4 de janeiro, pintam um retrato sombrio dessa realidade: 2.348 acidentes, 2.662 feridos e 220 vidas perdidas. Em média, 18 pessoas morreram por dia em incidentes que poderiam ser evitados.
O que mais preocupa os especialistas em segurança no trânsito, além do alto número de mortes, é o comportamento que alimenta essa tragédia: a imprudência. No período, a fiscalização da PRF emitiu 27.579 multas por excesso de velocidade e 1.969 autuações por dirigir sob efeito de álcool. Os dados confirmam que o desrespeito às leis é um fator decisivo na carnificina das estradas.
"A ciência mostra que 90% dos acidentes de trânsito estão relacionados ao comportamento humano", afirma Adalgisa Lopes, psicóloga especialista em trânsito e presidente da Associação das Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (ACTRANS-MG). "Isso é perigoso porque, em vez de focarmos em regras mais seguras e no comportamento dos motoristas, estamos afrouxando as exigências para a CNH. Isso cria um precedente alarmante que vai se traduzir no aumento de acidentes e mortes", alerta.
Minas Gerais lidera ranking da imprudência
O estado de Minas Gerais exemplifica a gravidade do cenário, liderando os rankings negativos. Apenas entre os dias 30 de dezembro e 4 de janeiro, foram 193 acidentes em suas rodovias, um número muito superior ao de Santa Catarina (134) e Paraná (107). O estado também foi o campeão em flagrantes de excesso de velocidade, com 4.105 autuações.
O risco da "economia que mata"
Diante de um quadro de imprudência generalizada, o recente afrouxamento das regras para obter e renovar a CNH é visto como uma bomba-relógio. Especialistas advertem que a flexibilização das avaliações de saúde, sob o argumento de "desburocratização", agravará drasticamente a violência no trânsito.
"O que se economiza na avaliação é transferido diretamente para os custos da saúde pública e da previdência social. Quando um condutor sofre um acidente grave, ele deixa de ser um provedor e se torna um custo altíssimo para o Estado, além do drama familiar que isso causa", pontua Adalgisa Lopes.
A psicóloga especialista em Trânsito Giovanna Varoni explica que a maioria dos acidentes graves é causada por falhas humanas, como reação tardia ou ausência de reação, condições diretamente influenciadas pela saúde física e mental do motorista. "A ausência ou a reação tardia não são apenas desatenção. São indicadores de falhas na atenção, percepção e velocidade de processamento, frequentemente afetadas por estresse ou fadiga. Ao sucatear os exames, aumentamos o risco de que condutores com a capacidade de reação comprometida permaneçam ao volante, colocando todos em perigo."
Segundo ela, a avaliação médica e psicológica é uma ferramenta de prevenção fundamental, capaz de identificar desde condições como diabetes e hipertensão até traços comportamentais de risco, como impulsividade. "A segurança viária precisa ser vista, primariamente, como uma questão de saúde pública e comportamento humano", conclui.
Os números da PRF servem como um duro aviso. A imprudência já mata centenas de pessoas em poucos dias. A questão que fica é: quantas vidas mais serão perdidas quando as consequências de uma "desburocratização" irresponsável se manifestarem em sua plenitude nas estradas do país?

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